Cartilhas de bem viver

Livro resgata coleção dirigida por médico que orientava iniciativas higienistas entre os anos de 1935 e 1938

22/11/2017 | Atualizada 22/11/2017 - 08:54
  • Ilustrações da coleção “Bibliotheca Popular de Hygiene: a saúde para todos”
  • Heloísa Helena Pimenta Rocha, autora da pesquisa: “O estudo evidenciou que a composição das capas e o amplo emprego das imagens, entre outras características, buscavam conferir um caráter ‘popular’ aos livros da coleção” | Foto: Lucia Paciaroni
  • Ilustrações da coleção “Bibliotheca Popular de Hygiene: a saúde para todos”
  • Ilustrações da coleção “Bibliotheca Popular de Hygiene: a saúde para todos”

[Do Portal da Unicamp | Texto: Patrícia Lauretti | Fotos: Reprodução/Divulgação/Lucia Paciaroni | Edição de imagem: Luis Paulo Silva]

 

De que forma determinado objeto cultural se converte em obra didática, como aconteceu com a coleção Bibliotheca Popular de Hygiene: a saúde para todos, de autoria do médico Sebastião Barroso, publicada entre os anos de 1935 e 1938? O que é, afinal, um manual escolar? As perguntas são examinadas no estudo feito pela professora Heloísa Helena Pimenta Rocha para sua tese de livre-docência, apresentada à Faculdade de Educação da Unicamp. O trabalho agora está disponível no livro intitulado Regras de Bem Viver Para Todos: a Bibliotheca Popular de Hygiene do Dr. Sebastião Barroso, da editora Mercado das Letras, com financiamento da Fapesp.

“O título da obra se inspira no tipo de conteúdos abordados pelos livros da coleção e nos propósitos de intervir sobre os modos de viver da população, que orientaram as iniciativas no campo da higiene”, afirma a autora. A preocupação com as questões sanitárias e de higiene assumiram uma dimensão importante na primeira metade do século XX no Brasil. As cidades cresciam e, ao mesmo tempo, se ampliavam os quadros de doenças endêmicas ou epidêmicas.

O período foi marcado por iniciativas voltadas para a expansão da escolarização, pela difusão das ideias higienistas e pelo movimento em prol do saneamento rural. Sobretudo a partir da década de 1920, torna-se corrente, no discurso dos intelectuais e nas iniciativas dos poderes públicos, a ideia de que os problemas de saúde estariam relacionados à falta de educação da população. Manuais escolares publicados nesse contexto e, voltados para a escola primária, abordavam os temas relacionados ao asseio, alimentação, exercícios físicos e prevenção de doenças.

No estudo, a autora analisa as relações entre livro, texto e autor, destacando também o papel do editor na maneira como a coleção foi produzida e destinada a públicos diferentes. O autor, o médico Sebastião Barroso (1866-1941), foi um importante divulgador dos conhecimentos produzidos no campo da higiene. Integrante da equipe do sanitarista Oswaldo Cruz, Barroso também atuou nos Estados de Minas Gerais, Pernambuco e Bahia, além de colaborar com vários órgãos de imprensa da época. Já o editor, o educador Lourenço Filho, foi um dos nomes mais representativos do movimento de renovação educacional conhecido como “Escola Nova”.

A coleção de 27 volumes (publicada na época pela Editora Melhoramentos) inicialmente era voltada ao público em geral. Sua destinação ao público escolar coincidiu com o momento em que a tiragem foi reduzida quase à metade. Para a autora, a mudança é sugestiva de que a decisão visava ampliar o número de leitores de um empreendimento editorial que, talvez, não tivesse obtido o sucesso esperado. Para o uso didático, os pequenos livros passaram a contar com um apêndice, contendo orientações aos professores, além da indicação de outros títulos da editora relacionados com as temáticas abordadas. “O estudo evidenciou que a composição das capas e o amplo emprego das imagens, entre outras características, buscavam conferir um caráter ‘popular’ aos livros da coleção, como parte das estratégias editoriais acionadas com vistas a atingir o público”, complementa a docente.

“As imagens ocuparam um lugar significativo na constituição de uma retórica que visava à conformação dos comportamentos dos leitores. O acervo de imagens presentes nas páginas das obras de Sebastião Barroso, que inclui numerosas gravuras e algumas fotografias em preto e branco, pode ser indicativo das mutações em relação à compreensão das doenças e de seus agentes, bem como das prescrições daí derivadas para a prevenção dos males e a preservação da saúde”, afirma Heloísa.

As questões relativas às doenças transmissíveis, agentes envolvidos na sua transmissão, e ações profiláticas são recorrentes nos títulos da Bibliotheca Popular de Hygiene. Para a autora, a explicação para essa ênfase pode ser encontrada, entre outros aspectos, na própria trajetória do autor, marcada pela atuação em órgãos de saúde pública voltados para a profilaxia rural.  “Diferentes tipos de imagem percorrem os títulos da coleção, o que pode ser lido como um investimento no sentido de tornar a mensagem da higiene acessível, mesmo para aqueles que não dominavam os códigos da escrita”, complementa.

Os exemplares estudados pela docente foram adquiridos pela internet e pesquisados em vários acervos, como na Biblioteca Nacional, Biblioteca Infantil Monteiro Lobato e Escola Normal de Minas Gerais, como parte de um projeto mais amplo financiado pelo CNPq. O conjunto de títulos foi consultado no Acervo Histórico da Editora Melhoramentos, “o que permitiu ter acesso a informações privilegiadas sobre o ano de publicação, tiragem e preço a que eram comercializados os livros”, relata a autora.

Desde o mestrado a docente se dedica ao estudo das relações entre educação e saúde. Sua tese de doutorado também deu origem a um livro: “A higienização dos costumes: educação e saúde no projeto do Instituto de Hygiene de São Paulo (1918-1925)”. Na publicação, Heloísa se dedicou ao estudo da reforma sanitária instituída em São Paulo em 1925, “que deslocou a ênfase da política sanitária do policiamento para a educação sanitária”. 
 
Leia a reportagem no Portal da Unicamp.