REVISTA FERMENTARIO - v. 1, n. 8 (2014) ESPIRITUALIDAD, FILOSOFIA Y EDUCACIÓN / ESPIRITUALIDADE, FILOSOFIA E EDUCAÇÃO

ESPIRITUALIDADE, FILOSOFIA E EDUCAÇÃO

Dentre os vários temas e as problematizações que as pesquisas de Michel Foucault suscitaram ao redor da cultura do cuidado de si, a questão da espiritualidade se destaca. No curso ministrado no Collège de France, em 1982, denominado de A hermenêutica do sujeito, a espiritualidade é concebida como a transformação do modo de ser do sujeito por ele mesmo. Perpassando uma cultura filosófica milenar, dos séculos V a.C até os séculos IV-V d.C, o fundo que mobilizava a espiritualidade eram os modos pelos quais, por intermédio de uma tékhne toû bíou – uma arte de viver – um sujeito poderia ter acesso à verdade, ao mesmo tempo que se constituía e se transformava com a prática da verdade.

Em tal conjuntura, a verdade jamais era dada de pleno direito ao sujeito. Tampouco era garantida por um ato de conhecimento. O acesso do sujeito à verdade estava atrelado à sua capacidade de modificar-se e de transformar-se. Assim, em primeiro lugar, o sujeito se constituía na medida em que pagava um preço transformador para atingir um modo de ser. Para tanto, em segundo lugar, eram convocados formas diferentes de exercícios e de práticas de atividades ou de técnicas para garantir a transformação do sujeito. Finalmente, a constituição do sujeito emergia da sua condição subjetiva enquanto consequência de sua relação com a verdade e com as práticas que transitavam sobre ele, que o atravessavam, transfigurando-o. Com efeito, “para a espiritualidade, um ato de conhecimento, em si mesmo e por si mesmo, jamais coseguiria dar acesso à verdade se não fosse preparado, acompanhado, duplicado, consumado por certa transformação do sujeito, não do indivíduo, mas do próprio sujeito no seu ser de sujeito”, argumentou Foucault na aula de 6 de janeiro de 1982.

Para nós, modernos, a o que dá acesso à verdade, contudo, passou a ser o conhecimento e tão somente o conhecimento. Desde então, o sujeito é capaz, em si mesmo, e unicamente por seus atos de conhecimento, de reconhecer a verdade e a ela ter acesso. Na modernidade, aprendemos a ter domínio sobre as coisas e sobre os outros, mas não mais sobre nós mesmos. Estamos longe de uma transformação de nós mesmos e nos distanciamos, cada vez mais, do preço que temos de pagar para nos implicarmos em qualquer transformação.

O objetivo deste dossiê é pensar e refletir acerca do contexto da espiritualidade tal como Foucault concebeu, trazendo o debate para o campo da filosofia e da educação. Como seria possível o tema da espiritualidade nos auxiliar a deslocar o pensamento e as experiências de constituição de subjetividades para além do centralismo e da captura do ato de conhecimento modernos? Em que medida as dimensões conceituais e de experiência da espiritualidade podem nos auxiliar a pensar relações de transformação de nossa constituição subjetiva? Seria a espiritualidade um exemplo acerca da impossível separação entre teoria e prática, no que concerne as verdades que estão implicadas nas experiências educativas? É possível fazer das experiências com o pensamento e com a educação uma experiência espiritual? Quais seriam as implicações da espiritualidade para a nossa relação com a verdade, com a nossa constituição, com o que fazemos, pensamos e somos?

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